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E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

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05
Jun07

Irritada

Little Miss Sunshine

Opá, não sei, devo de estar com o periodo a aparecer! Ou então já estou a ficar com os nervos de ter de ir apanhar avião depois de amanhã, ou pior ainda, é da àgua que eu tenho andado a beber que atrofiou o meu cerebro... não sei! A verdade é que estou mesmo irritada, desde hoje de manhã, quando o meu gajo me pôs à frente as minhas papas de aveia completamente AGUADAS! Eu sei que ele queria agradar e o caraças, mas não há desculpa que o ilibe da falta de interesse naquilo que eu gosto ou que me faz feliz! Eu ontem tinha feito as papas de aveia mesmo à frente dele! 

 

Estou farta de discutir com o gajo. Farta. Hoje foi o dia todo. Está a dar comigo em louca. É concessões que não se fazem, trabalho que não se faz e aqui a burra de carga que arque com a responsabilidade toda desta relação. Não sei, juro que não sei o que é que fiz para merecer isto. Bolas! Todos os dias acordo com uma carrada de roupa para lavar, quarto para aspirar porque a Sra. Daisy além de estar com o cio (e por isso mesmo, só se roça em tudo o que é canto - seja o canto da secretária, da TV, do computador, da porta, da cama - É que GRAÇAS A DEUS que não é gato, senão o que já ía de marcação de território eu nem quero pensar!!!!), anda a largar muito pelinho e isto de partilhar um quarto (por maior que seja) com uma felina de temperamento mais difícil que a própria dona (eu), é OBRA!

 

E depois é o facto de nesta altura o Sr namorado/ parceiro não querer fazer mais horas no trabalho - apesar de poder, uma vez que se encontra de férias e o limite de 20h semanais imposto pelo Visto de estudante não se aplica neste periodo. Está a fazer 16 horas e nem sequer quer ouvir falar em fazer mais horas... Nós andamos a contar os tostões e eu já subi de 20h para 30h as minhas horas no supermercado.

 

Não era grave, se eu gostasse do que faço, mas eu odeio aquele supermercado. Odeio os conflitos, as fofocas, as intrigas, o ter de correr de um lado para o outro sob o olhar e escrutínio dos clientes e gerentes, e ainda por cima ter de fazer tarefas em cima de tarefas só para poder ganhar um pouco mais de dinheirinho para quando for a Portugal em Agosto e posteriormente, quando iniciar o meu Mestrado.

 

Outra coisa que me irrita é o facto de querer sair daqui e me sentir constantemente presa. Estou presa às obrigações e às relações. É o trabalho, mais tarde vai ser o empréstimo de três anos para poder pagar o mestrado, é o namorado, é o próprio Mestrado, a Daisy... (suspiro) Não há meio de me poder pôr a andar daqui para fora tão cedo, e eu odeio Hatfield - nesta altura então, toda a gente vai de volta a casa e isto fica deserto... Pior que tudo é eu ver os meus amigos partirem e eu ficar por aqui, presa a tanta coisa que nem sequer me faz mais feliz (provavelmente porque tudo se tornou, de repente, numa obrigação...).

 

Depois de constatar estas coisas, muita gente me pergunta porque raio é que eu não mudo então? Pois... Fácil de fazer na teoria, mas não lá muito prático. Mais, mudar-me daqui para onde? Portugal? Não me parece. Ainda ontem numa conversa com a minha mãe me apercebi que seria uma manobra de marcha atrás voltar a Portugal. Isto porque em Portugal ainda há muita gente que mata e esfola, ainda há muita gente que explora e destrata... Gente, leia-se empregadores.

 

Nesse aspecto Portugal não está na vanguarda. Enquanto mandava aplicações de emprego em nome da minha mãe, que presa num emprego a ganhar tuta e meia para sobreviver não conseguiu arranjar um emprego melhor que o de assistente de loja, apercebi-me o quão retrógada a minha pátria ainda está - especialmente quando comparada à vida Britânica.

 

 A minha mãe esfolou-se para tirar um curso de licenciatura na Universidade Clássica, tem mais experiência e compromete-se mais que qualquer jovem recém-licenciado, enquanto tirou o curso andava também a educar e a gerir uma família de seis pessoas. Agora, que está sózinha (apesar de ter sempre os filhos, aos quais pode sempre recorrer), precisa mesmo de um emprego à altura dela, onde possa desfrutar descansada de uma carreira que pode muito bem ainda durar mais de 10 anos!!!! No entanto, aos olhos dos empregadores, a minha mãe está provavelmente expirada, e só porque tem 52 anos e os empregadores querem é malta jovem, e por isso nem sequer se dão ao trabalho de a chamar para uma entrevista.

 

Pois bem... Aqui em Inglaterra, há coisa de mês e meio, foi PROÍBIDO solicitar o famoso D.O.B. (date of birth - data de nascimento). Qualquer companhia que o fizer nesta altura do campeonato está sujeita a pesadas multas porque está a infringir a lei de igualdade. Agir contra esta directiva é considerado ACTO DISCRIMINATÓRIO e é PUNIVEL POR LEI. Ontem, enquanto preenchia vários campos de formulários de empregos portugueses em nome de minha mãe, só UMA companhia (das 10 a que me dei ao trabalho de mandar os dados) é que não considerava OBRIGATÓRIO dar a data de nascimento. No entanto, esse dado ficava à discrição do aplicante, que poderia ou não inserir tal informação se tal o desejasse.

 

Eu já sabia que as coisas em portugal estavam complicadas, a economia não permite criar tantos postos de trabalho quantos os seriam necessários... Mas valeu mesmo a pena tanto esforço para acabar um curso superior? De que vale ter uma licenciatura hoje em dia em Portugal? Porque pelo que sei, também é difícil arranjar trabalho qualificado para recém-licenciados jovens. Onde é que está o progresso? Onde é que está o incentivo para trabalhadores estudantes - porque em Portugal os mesmos são contemplados como um trabalhador normal, as regalias são limitadas (se as há) e muitas vezes se ouve dizer entre portas que 'estudar é um luxo e por isso não é prioridade´!?

 

Em Inglaterra estudar é prioridade. Talvez por isso tenham aqui os melhores médicos especialistas, os melhores gestores, os melhores marketeers. Talvez por isso, neste país se brinde à igualdade, porque se aprende com as diferenças dos outros. A tolerância existe, entre as classes cultas e educadas, onde barreiras ao conhecimento são muitas vezes substituidas por capitais de investimento para pesquisas e desenvolvimento de competências,

 

A minha mãe aqui arranjaria um emprego qualificado em menos de duas semanas. Aqui não há restrições de idade, condição física ou monetária, background político ou religioso. Aqui a pessoa é vista como uma aquisição importante de uma dada companhia, e que vai contribuir para o desenvolvimento da mesma, independentemente da maneira que for.

 

É injusto, pronto, é injusto... Mais, nesta altura tudo me parece mais que injusto. Estou farta de não saber que rumo tomar. Estou quase a chegar aos trinta. É já para o ano... e depois? Nem posso dizer que a minha relação caminha a passos largos para a felicidade, porque há-de haver sempre uma falta de interesse lactente, e para mim, falta de interesse é falta de amor. Tenho saudades de sentir aquele calorzinho no peito só numa troca de olhares... O meu coração diz-me que tem de haver mais que isto. Tem de haver mais para além disto...

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