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E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

08
Ago07

Adeus, Fundo de Maneio!

Little Miss Sunshine

Mas o que é que me deu para fazer mestrado? Porque raio acreditei eu que o faria? Sem um banco a dar-me um empréstimo (e os que dão, a cobrar-me 40% de juros!!!), sem dinheiro suficiente na minha conta, como é que eu acreditei que a minha vida ía ser fácil nesse aspecto?

 

Acreditem, nunca é. Quando eu meto na cabeça em fazer algo de que gosto, há sempre contratempos, opções e decisões que eu tenho de fazer - muitas delas que magoam profundamente.

 

A questão do dinheiro para o mestrado está a ser resolvida à moda indiana, em solo indiano, pelo meu parceiro. Infelizmente, as coisas lá processam-se através de cunhas e conhecimentos, e portanto, uma coisa que deveria demorar uma semana, vai certamente estender-se para além da semana e meia.

 

Isto gerou um conflito na minha pessoa. Muito ao 'Diário de Sofia', o que é que acham?

 

Será que devo esperar que o menino resolva as nossas situações económicas através de um empréstimo que para o comum português já é um piparote de massa (quanto mais para um Indiano!) e que, consequentemente, fique na India por mais uma semana mais coisa menos coisa (implicando a minha chegada ao Reino Unido completamente desamparada e sem a presença de boas vindas do mais que tudo);

 

Ou será que devo ceder às saudades e não deixar que o mais-que-tudo fique na India mais tempo que aquele previamente  previsto e discutido, arriscando a que o mais-que-tudo venha de lá sem dinheiro para o mestrado dele, ou sem dinheiro para o meu mestrado, ou - pior ainda - sem dinheiro para o mestrado dos dois?

 

A primeira opção parece a mais racional, mas a que eu escolho é mesmo a opção 2. Isto porque estou há quase duas semanas sem ver o meu namorado, com o qual vivo ininterruptamente há um ano. Para mim, uns dias é bom, uma semana é demais, duas então é sofrimento constante.

 

Não digo que não me tenho divertido em Portugal, mas estes dois últimos dias têm sido dos piores dias que já tive até agora. Agarrada ao comando de TV, esponjada no sofá, espero ansiosamente que as horas passem só para que possa ir dormir. As discussões ao telefone agudizam-se com a aproximação do fim de semana, e com a incerteza de uma solução para as minhas crises emocionais já tão típicas, mas fruto de uma insegurança lactente que já existe em mim desde tempos de adolescente.

 

Quero estar com o mais-que-tudo, quero estar com ele hoje, agora e aqui já! O saber que ele está noutro continente, o saber que a cultura dele impinge casamentos de um dia para o outro, o saber que ele estava doente do estômago depois de eu ver nas notícias que a cólera e a Malária estão a dar em força devido aos monções, tudo isso me incompatibiliza com a felicidade de estar no meu país.

 

Nesta altura eu queria estar lá. E começo a castigar-me por lhe ter emprestado o dinheiro para o bilhete, por lhe ter dito que vá, por lhe ter pedido que fosse tratar dos nossos assuntos uma vez que fomos deixados somente com essa hipótese e mais nada...

 

Mas enquanto deambulo entre a Feira Nova e a minha casa, olho à minha volta e só vejo solidão. E acredito que talvez esse seja o meu maior problema. Habituei-me tanto a ele, à presença dele, ao amor dele, aos mimos dele, ao carinho dele, que agora que estou longe dele só me apetece remeter ao silêncio do quarto onde pernoito, só me apetece ficar isolada num espaço seguro, e ficar por aqui, contando as horas e os minutos para poder regressar ao nosso lar.

 

Mas depois o medo invade-me. O nosso lar vai certamente estar vazio caso ele fique na India por mais tempo. Então, para acabar com esta tristeza e poder disfrutar dos restantes dias em terras lusas, não quis que ele pedisse dinheiro para mim. Disse-lhe que eu não quero fazer o mestrado, pois se era o meu dinheiro que o estava a reter na India, então ele que trouxesse o dinheiro dele e que viesse embora porque eu não aguento mais esta ausência dele...

 

A minha relação vale muito mais que todo o dinheiro do Mundo. Eu não preciso do mestrado para conseguir um bom emprego. A minha média de curso é mais que suficiente para me garantir isso, uma vez que é a segunda banda de classificação mais alta em termos académicos, e a mais procurada por empresas.

 

Eu queria mesmo fazer o mestrado, mas sabem uma coisa? Quando as coisas não têm que ser, elas simplesmente não acontecem. Se eu não tenho que fazer o mestrado, por mais que o mais-que-tudo se esforce, ele vai ter sempre problemas com o empréstimo. E eu não estou para que ele fique retido na India por causa de dinheiro.

 

Isto pode parecer de certa forma possessivo, ou egoísta. No entanto eu estou a abdicar de uma coisa que significa muito para mim, significa tudo aquilo que eu gostaria de fazer, o culminar de três anos de estudo, a especialização merecida. Tudo porque eu quero estar com o meu mais-que-tudo. Já não aguento as saudades e a ausência. Por mais telefonemas que façamos, por mais que nos vejamos no messenger, a verdade é só uma: o que tem de ser tem muita força.

 

Se tiver de fazer o mestrado, eu sei que as coisas se irão compôr para delícia dos dois. No entanto, se estas não se compuserem, tenho a dizer que não vou desistir. Agora, uma coisa é certa: nunca deixarei que assuntos de dinheiro ou mesmo dinheiro se intrometam entre mim e o meu mais-que-tudo. Porque dinheiro é bom, é algo que permite fazer coisas, atingir objectivos... Mas nunca, nunca mesmo, se poderá comprar um verdadeiro amor com dinheiro.

 

E nesta altura, os meus sonhos passam pelo mestrado, mas passam mais ainda pelo meu desejo de construir uma família. E isso não tem preço - mas está limitado pelo tempo.

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