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E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

03
Set07

Silêncio...

Little Miss Sunshine

Para uma estudante como eu, prestes a iniciar os meus estudos, mudar de casa implica sempre muito stress, mas também muita dedicação, e muita cedência de muita coisa. Se por vezes me dá a travadinha porque o vizinho do quarto ao lado deixou os sapatos no meio do corredor, ou porque está um grão de lixo na cozinha, a verdade é que nem sempre foi fácil adaptar-me a outras pessoas.

 

Sempre fui reservada para quem mal me conhece. Mas não se enganem - sou uma leoa de gema, e portanto sei bem do que a casa gasta. Podem pisar-me os dedos dos pés, e eu não dizer nem ai, nem ui. A panela da paciência é grande e ainda vai dando para o gasto, e portanto penso que para início de um novo começo as coisas até não estão a correr tão bem.

 

Basicamente, eu administro esta casa - e disse. Todos têm obviamente o seu espaço de intervenção/comunicação, mas não me pisem os pés muitas vezes. Odeio morar numa casa onde só tenho pertença de um quarto. Onde as zonas comuns são somente zonas de passagem, sem víncos de amizade ou fidelidade. Eu afeiçoo-me sempre - ou não fosse de fogo.

 

O mesmo se passa com a vida profissional, e até com a vida académica. Não - eu não sou de desistir. Mas a batalha diária também cansa e chega a noite, muitas vezes sem eu dar por isso, mas já toda podre para poder encostar estes ossos na minha bela da minha caminha.

 

Às vezes penso: será que a minha vida não vai passar disto? Será que vou ter de viver para sempre numa casa que não é minha, ocupar um espaço exíguo com uma pessoa que diz que me ama? As coisas podem sempre ser melhores. As coisas serão sempre melhores. Mais que não seja porque o ser humano tem uma capacidade de adaptação incrível.

 

Ontem fui falar com um dos big bosses do meu antigo trabalho - aquele que eu perdi, algures entre um dia e outro. Lá se abriu uma possível porta - vamos ver para a semana que vem. Entretanto ainda não soube nada das entrevistas a que fui na sexta-feira. Ou vai ou racha - penso eu muitas vezes. Ainda hoje, a caminho de Stevenage onde tenho aquele biscate a cada quinze dias, passei a hora de autocarro a pensar na minha vida.

 

Olhava para a paisagem a correr, as plantas, o verde, o sol a raiar de vez em quando, tímidamente entre as núvens... E pensei na minha vida até aqui. Porque será que todos me dizem que eu tenho garra? Que eu tenho uma grande força interior? Só porque fui capaz de viajar até um país estranho e construir a minha vida tijolo a tijolo?

 

Chorei muito, bati muito com a cabeça nas paredes. Sim, é verdade... Levantei-me sempre. Mas a que custo? Muitas vezes questiono se aquilo que estou aqui a fazer faz algum sentido. Há dias em que faz todo o sentido, dias como aquele que passou quando soube que tinha terminado o meu curso e que o tinha terminado com uma média muito acima daquilo que eu esperava.

 

Mas também sou muito cobarde. Odeio confrontos, odeio chatices. Agora mando o namorado resolver os stresses - não quero pensar em mais nada, não quero sofrer mais. Ontem estava cheia de saudades de casa. Da minha família. Não de como ela está agora, mas de como ela era, antes de todos os problemas começarem. Às vezes sinto-me culpada, porque olhando para trás parece que as coisas se começaram a desmoronar quando eu decidi embarcar na minha aventura.

 

Um após o outro, todos fomos desertando a casa paterna - uns mais que outros. Pouco a pouco, parece que o amor entre nós se desvaneceu, não se exprime, ou guarda-se para épocas festivas. Quando volto a casa para passar férias é penoso olhar para aqueles que foram animais de casa, de adoração, prostrados e condenados a um espaço vazio - quiçá à espera que algo de bom aconteça - ou algo de mau. Os pontos de vista são subjectivos, o sofrimento é real.

 

Mas o tempo passa, não perdoa, não volta atrás. Um dia perde-se um avô, depois uma avó, e outra... E o tempo corre, sem pedir licença, por entre a nossa pele, o nosso ar, o nosso alento. Rouba vidas, dá outras tantas, e nunca pára. E eu? Onde paro eu? Quando? Como?

Muitas vezes penso no dia do meu último suspiro. Terei a pele enrugada? Vai doer? Vou sofrer?

 

Nunca aceitei bem o facto das pessoas morrerem. Nunca. Tive sempre medo da morte. No entanto estive lado a lado com ela umas quantas vezes. Mesmo assim, a determinação quis que eu me mantivesse deste lado. Mas tenho medo do tempo. Nesta altura parece-me que ele é o meu maior inimigo.

 

O tempo não pára.

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