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E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

12
Set07

Comunicação Zero!

Little Miss Sunshine

O meu ânimo, apesar de torcidinho, está estável. Mantenho-me ocupada nas minhas coisas, aquelas que mais gosto de fazer, e o resto é conversa. Não é que esteja propriamente de braços cruzados à espera de uma resolução celestial, não é? Eu tenho feito o que posso para poder dar a volta por cima e se as coisas estão um pouco perras e andam para a frente muito devagarinho, então só tenho de ter calma e deixar andar...

 

Esta coisa de me irritar por tudo e por nada, só me envelhece e eu não estou para ter mais rugas na testa do que aquelas que já tenho. As coisas não estão bem, mas se me ponho a chorar nunca mais se endireitam, essa é que é essa. Infelizmente, nestes últimos tempos tenho sido eu para mim e mais nada. O mais que tudo e eu andamos a passar por uma fase muito complicada mesmo, tão complicada que ontem ele foi passar a noite ao quarto dele.

 

Como as coisas se deterioraram tão depressa é uma incógnita para mim. Claro que eu tenho alguma culpa no cartório, mas não toda a culpa como ele me faz muitas vezes crer! Ele só põe as culpas em cima de mim e recusa ver que certas acções que ele tomou e certas atitudes que ele tem para comigo têm, em parte, causado o desmoronamento daquilo que juntos construímos faz agora pouco mais de um ano.

 

Assim que chega a casa não é capaz de vir ter comigo e me dar um beijo, mesmo depois de ver que eu lhe preparei o almoço; muitas vezes vê que eu lhe preparei o almoço ou o jantar e quando eu lhe digo que o comer está pronto vira-se para mim com uma descontra do caraças e diz que vai tomar um duche rápido (que demora sempre mais de 30 minutos, e quando ele volta jé eu acabei a minha refeição, a qual comi sózinha, o comer dele está frio e eu já estou a deitar fumo pelos ouvidos e pelo nariz); muitas vezes depois de comer, diz que já vem, mas vai para o quarto dele falar ao telefone com os amigos - em línguagem ininteligível para mim - ou põe-se a jogar Wii com os vizinhos do quarto de baixo, ou mesmo sózinho, em vez de passar tempo de qualidade comigo; quando eu lhe peço para passar a tarde comigo, abraçadinhos e juntinhos, acabamos a guerrear porque ao fim de meia hora e uma série na TV já está a fumegar - isto se entretanto não recebeu 500 telefonemas durante o tempo que era suposto ser só nosso.

 

Últimamente atiramos coisas mesquinhas à cara um do outro, e eu passo o dia irritada com ele de tal maneira que nem sequer me apetece olhar-lhe para a cara durante os próximos vinte meses. Intimidade, está quieto, é que esqueçam mesmo!  - pudera, se não há comunicação como é que eu me vou sentir amada, segura, desejada? Ele passa a vida a dizer que eu isto e que eu aquilo e blá blá blá, como se já não bastasse a minha situação de desempregada e os stresses com dinheiro e CVs e os problemas de gerir esta casa também... Não me compreende, em vez disso decide recriminar-me porque eu estou sempre amuada, ou chateada - e não descansa enquanto não me magoa mesmo ao ponto de me pôr a chorar.

 

Depois deixa-me a chorar uns minutos e vem de mansinho pedir perdão. Meus amigos, eu tive um namorado que abusava de mim fisicamente e o comportamento é mais ou menos o mesmo, com a diferença de que o mais que tudo não me levanta a mão mas espezinha a minha auto-confiança. O ciclo de chantagem emocional em que a nossa relação se tornou é pouco saudável e levou-me a analisar muitas coisas - mas principalmente os meus sentimentos e os dele por mim.

 

No geral, aquilo que ele me leva a pensar, com a atitudezinha estúpida dele, é que ele não me ama - e já não me ama há muito tempo. Não faz concessões, não larga tudo por mim, não é capaz de me fazer uma vontade - por mais razoável que esta seja. No outro dia pedi-lhe para ler uma definição, pedi-lhe para o fazer por mim. Não o fez. Estávamos sózinhos, era só uma definição... E ele não foi capaz de o fazer por mim. Não era nada de mais, como por exemplo vir da India mais cedo - algo que eu também lhe pedi para fazer, mas fui razoável o suficiente para entender que era complicado, mesmo apesar de lhe ter encontrado um vôo de regresso mais cedo, mesmo depois de lhe oferecer o dinheiro para ele voltar mais cedo...

 

Prometeu que estaria à minha espera quando eu regressasse de Portugal, que não me deixaria desamparada, e eu cheguei a Londres de malas e bagagens, mas ninguém à minha espera. Uma semana, tive eu de esperar para que o menino resolvesse voltar, uma semana. E nessa semana mudou o regresso 'n' vezes: que era terça, depois já era quinta, depois já era sexta, e sábado... Tudo para regressar na terça-feira da semana seguinte...

 

Promessas, promessas, não é capaz de as cumprir. Anda a prometer um anel de noivado desde Março, todos os meses me prometia que era nesse mês, mas qualquer coisa que surgisse acabava por ser motivo suficiente para dizer que afinal só para o mês que vem... E depois, a maior mentira de todas, que seria nos meus anos... Mas não foi capaz de tratar da merda do visto com tempo suficiente. Acabou por me estragar as férias, os meus anos, e nada de anel. Que o comprou, eu sei que sim - vi a caixa. Mas agora sou eu que não quero, porque as coisas entre nós estão mais azedas que nunca e eu não quero sequer pensar num compromisso mais sério com uma pessoa que não me põe em primeiro na lista de prioridades dele, ou que diz que me ama mas é capaz de passar horas ao telefone com os amigos quando nem sequer fala comigo mais do que um minuto seguido.

 

Eu sinto-me sózinha, e cada vez que o vejo a falar ao telefone com quem quer que seja, dói-me tanto porque esse é tempo que me deveria pertencer, a mim! Era comigo que ele deveria falar, rir, era a mim que ele deveria dar atenção... E de poucas palávras a nenhuma, nesta altura nem isso temos, porque o discurso morreu desde ontem.

 

Estou tão farta de me sentir velha, sem brilho, gorda e sem interesse. Parece que ele matou a minha alegria, a minha vontade de ser mulher e de ser feliz. Estou quase com trinta e nunca tive tanto medo... medo de acabar sózinha, ou infeliz, ou a saltar de poiso a poiso... sem saber muito bem porquê. É isto que me espera? Uma vida cheia de tristeza e sem romance?

 

Porque eu passei a minha infância a planear o meu casamento, o meu romance, e de como seria o meu príncipe encantado. Lembro-me que brincava com as Barbies num faz de conta desenfreado. Estive sempre desejando encontrar o cavaleiro encantado, e tive muitos moinhos pelo meio, eu como D. Quixote, a não querer ver a verdade das coisas.

 

Hoje, começo a pensar se não será o meu medo de ficar sózinha que me submete a tanto sofrimento. As minhas dúvidas nunca fizeram tanto sentido como hoje. Se há um príncipe encantado, então onde é que ele está? Porque o meu relógio biológico grita-me na consciência todos os dias - se me liberto das correntes da minha relação, pode ser tarde demais para mim... e o príncipe encantado pode não existir para além dos meus sonhos. Afinal, isto é a realidade, a vida nua e crua.

 

Não tenho coragem para fugir disto, para terminar isto, para dizer CHEGA!

 

...quem diria, que depois de tudo o que passei, a coragem um dia me abandonaria. Mas deixem-me arranjar emprego - e depois falamos.

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