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E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

23
Out07

Get out of my life!!!!

Little Miss Sunshine

Ontem tive provavelmente uma das piores noites da minha vida. Preciso de ajuda, é um facto. Ando carente, sinto-me sózinha e acabo por perturbar as pessoas à minha volta com tanta dependência. Como me tornei dependente desta maneira eu não sei. Mas nunca fui muito independente de afectos. Quando era mais miúda tinha a mania de me apaixonar por qualquer jeitoso que sorrisse para mim...

 

Eu e o Sid não nos falamos. Devolvi-lhe o anel de noivado em raiva, voaram frascos de gel de duche, pastas de dentes, shampoos à uma e meia da manhã. Como é que ele não percebe que naquele momento eu precisava dele, e ele deixou-me!? Para ir trabalhar, +é certo, mas podia ter ficado em casa - eu estava muito murchinha, precisava de um abraço longo e forte...

 

Como é que eu posso confiar num homem que não fica comigo quando eu preciso - é que nem é todos os dias! Mas o dia de ontem correu-me tão mal e eu ando tão desanimada com o raio do mestrado e como as coisas andam a correr para os meus lados, que precisava mesmo de um carinho.

 

Por amor da Santa! Ele nem sequer disse aos pais dele que tinha ficado noivo... E nem fazia intenção de o fazer não fosse eu lhe dizer para o fazer - e meus amigos, as coisas não deviam de ser assim, pois não? Parece que ele não se mexe para nada a não ser para trabalhar (o que não é mau, convenhamos), mas em excesso também não é bom.

 

E eu tive de passar pela humilhação (que mesmo que não tenha sido, para mim foi como se fosse, pois eu senti na pele...) dos amigos dele lhe perguntarem se ele contou aos pais e ele ficar assim parvo, comigo a ter que responder que não, ainda não, mas que o vai fazer e desculpas, desculpas, desculpas...

 

Eu tenho 29 anos, e não mereço andar às escondidas. Se para mim era importante que ele contasse aos pais dele - assim como eu contei aos meus pais - por mais que as nossas culturas difiram, a verdade é que quem ama vai ao fim do Mundo - que é coisa que eu faço TODOS OS DIAS POR ELE!

 

Não que esteja a cobrar, mas dá que pensar... Todas as noites o menino vem do trabalho e tem um prato delicioso à espera dele, chapattis acabadinhas de fazer, e sobremesas deliciosas... Eu passo três horas na cozinha por ele, horas que eu podia dedicar a mim mesma, mas por amor dedico a ele. Para ele nem sequer ter a coragem de dizer aos paizinhos que quer casar comigo.

 

E com isto começam-me a assombrar fantasmas do passado. Eu ando num impasse, não sei se quero levar este mestrado avante. Se por um lado eu adorava perceber um pouco mais de Marketing, e se o mundo do Marketing me fascina no sentido em que revolve à volta das pessoas e dos gostos do Mundo, por outro a ideia de assentar e começar uma família parece-me um caminho mais risonho, mais simpático.

 

Parece que toda a gente me diz que tenho tempo, e eu acho um piadão a isso! Depois dão-me sempre exemplos da tia ou da prima que casaram aos 31 e que tiveram os primeiros filhos já em avançados 30, e eu olho para essas pessoas e só me apetece dar-lhes chapadas na cara! Desde quando é que eu sou comparável a outras pessoas?

 

Meus amigos, eu sempre fui de querer tudo aqui, hoje e agora. Eu sei que nem sempre pode ser assim, e provavelmente por isso é que me vejo em momentos de grande frustração, porque parece que estagno num sítio e as coisas não arrancam até eu ter um esgotamento cerebral, mandar toda a gente à merda e seguir caminho, normalmente a fazer algo completamente diferente, num país ou localidade diferente, sei lá...

 

Há quem diga que eu ando a fugir. E talvez ande, não sei. No fundo a realidade é que a rotina instala-se sempre, não interessa onde estou ou o que faça. Ando triste e revoltada - é um facto. Será que devo seguir com a minha vida desta maneira? E talvez consultar ajuda profissional para a minha cabeça? Porque isto de ter saudades de casa e de querer voltar para o meu mundo seguro tem tomado conta de 90% da minha cabeça.

 

Só quero meter-me num avião, tão desesperadamente que ontem acabei a noite no aeroporto de Heathrow, só para constatar que me tinha esquecido do meu bilhete de identidade em casa (e das minhas roupas). Eu juro que me sinto a ficar maluca! Juro...

 

Assim que cheguei a casa, fechei-me no quarto, luzes apagadas, meti-me encolhida no roupeiro e chorei três horas a fio. Não faço ideia do que estou aqui a fazer e se o Siddharth era uma razão forte para continuar aqui, nesta altura eu só quero fugir, mesmo que isso signifique terminar um relacionamento que tem sido problemático.

 

Quero voltar. Quero voltar para casa. Não estou aqui a fazer nada - só a passar necessidades, dificuldades e a danificar o meu coração e a minha paz de alma... e tudo para quê? A minha vida não vai melhorar... Não vai. E eu sinto-me cair num poço tão fundo que duvido se alguma vez poderei sair dele algum dia... a não ser que tome uma decisão drástica.

 

Mas e depois? Se deixar isto tudo e voltar, vou ser vista como cobarde, como a pessoa que não acabou aquilo a que se propôs fazer. Como é que posso enfrentar essa perspectiva? Como? Como é que os meus pais vão-me ver? Eu não quero ser uma desilusão para eles. Meti-me nisto, é por demais justo que acabe o que comecei.

 

MAS PORQUE É QUE EU ME METI NISTO?

Desistir não é o meu lema, mas continuar a insistir em algo que não corre bem de maneira alguma é ser masoquista.

Tenho de tomar uma decisão.

 

 

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