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E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

29
Fev16

Leap Day

Little Miss Sunshine

De quatro em quatro anos celebramos um dia extra em Fevereiro. Não sei se em Portugal tem algum significado ou não, mas aqui em Inglaterra - onde estou - este dia chama-se 'Leap Day' e de acordo com a tradição, é o único dia em que supostamente a mulher pode pedir um homem em casamento.

Reza ainda a tradição que, se o homem rejeitasse a proposta da mulher,  este teria de lhe dar dinheiro, comprar-lhe um vestido ou um casaco de peles! Entre as classes média-altas da sociedade, se o homem se recusasse a casar após receber um pedido no Leap Day, teria de comprar 12 pares de luvas para a mulher rejeitada - evitando assim o constrangimento de ela ter de se apresentar publicamente sem um anel de noivado no dedo.

Não deixa de ter a sua piada. Numa altura de grandes mudanças sociais e culturais, em que os convencionalismos deixam de ter qualquer sentido e a igualdade entre os sexos começa finalmente a ganhar algum peso, este dia começa a perder o seu simbolismo antigo. Ficará com certeza para a história como uma das primeiras oportunidades para as mulheres se exprimirem de forma livre e independente sobre aquilo que sentem, mesmo que o intuito final fosse assegurar um casamento. 

Reza a história que há muitas mulheres que hojem pedem os homens em casamento. Não significa isso que queremos quebrar normas ou convencionalismos, nem tão pouco significa que somos oferecidas ou vendidas. Apenas sabemos o que queremos e estamos dispostas a lutar por isso. Quando entramos nos trintas, depois de uma vida de namorados, viagens e experiências, começamos a entrar numa fase de estabilidade profissional maior. Temos uma noção da vida e das coisas que queremos e não queremos bem maior do que quando atravessamos os vintes. Mas não deixamos de confiar no amor e nas coisas que fazemos por amor, mesmo depois das desilusões e das bagagens emocionais que carregamos. Eu pelo menos nunca deixei de acreditar que um dia vou ser feliz a esse respeito. E por isso continuo a ter fé no amor e na união de duas pessoas que se querem bem e se respeitam.

Não vou mentir e dizer que sou perfeita. Ninguém é perfeito. Mas vivi sempre a minha vida de acordo com as minhas normas e as minhas regras,sem passar por cima de ninguém, sendo sempre verdadeira e dizendo de cara aquilo que penso. Nunca precisei de homem nenhum para reconhecer o valor que tenho como pessoa, como profissional, e agora como mãe de duas meninas lindas. Eu sei o meu valor, e por muito que me rebaixem e me chamem aquilo que quiserem, vivo de consciência tranquila, e sei que o exemplo que estou a dar ás minhas filhas, é um exemplo de coragem e de braveria. Na minha situação atual, muitas mulheres continuariam a viver um casamento infeliz e desigual,  por medo de passarem necessidades ou de não conseguirem dar a volta por cima com duas crianças a reboque.

Mas eu estou rodeada de pessoas que me querem bem e querem que eu seja feliz, pessoas que convivem diáriamente comigo e que sabem reconhecer as minhas lutas e os meus medos sem apontar um dedo incriminador, sempre sinceros comigo para o que é bom e para o que é mau. Esses meus amigos, que vivem ao meu lado - e não a léguas de distância - sabem daquilo que falo, e estão prontos a ajudar assim que a dificuldade bate á porta. E são esses meus amigos que eu chamo de segunda família.

Eu fiz deste país o meu país. Vim para cá em 2004 e tudo o que construí foi com o meu suor, a minha luta diária, entre saudades da família, e vontade de voltar para aquela que foi a minha casa durante mais de 25 anos. Mas não voltei. Persisti. Insisti. Continuei em frente. Entre 2004 e 2010 contruí a base de tudo o que tenho, fiz isso sozinha, bem antes de decidir ser esposa e mãe. Depois de ter tomado a decisão de casar, fui eu que pedi em casamento o pai das minhas filhas. E não tenham dúvidas, ele foi o grande amor da minha vida. Mas as pessoas vão mudando, as prioridades também, e é muito complicado tentar consertar algo que já se partiu há muito tempo. Não há cola nem remendo que faça um copo partido voltar a ficar bom para beber água.

O tempo provou-me que eu estava certa em ter tomado a decisão que tomei. Para mim, viver o casamento não foi fácil. Viver a maternidade também não, em parte porque o casamento que eu tinha sempre foi frágil. Ambos tinhamos maneiras diferentes de viver a vida a dois, a três e mais recentemente a quatro. Eu tenho uma visão moderna da vida a dois. Não terei sido a única a tropeçar enquanto caminhava para a felicidade. E não será provavelmente o ultimo tropeção que vou dar. Mas pelo menos aprendi que duas pessoas que falam a mesma língua, nem sempre se entendem ou pensam da mesma forma, e que o facto de partilharmos algo especial durante anos não significa que um dia não dê errado. A vida tem sempre uma maneira de nos dizer que é tempo de recomeçar de novo.

28
Fev16

Fechando portas...

Little Miss Sunshine

Há momentos na nossa vida que servem para nos ensinar sobre as pessoas que nos rodeiam e sobre as portas que um dia abrimos, por simpatia e amizade, mas que agora temos de fechar, com cadeados e para sempre, porque as pessoas que de lá vieram não nos trouxeram nada de bom, e não nos querem bem MESMO! 

Para essas pessoas eu só desejo o bem, que vejam um dia a luz, que encontrem a razão e o senso comum no meio de tanta ignorância. Mas até lá, podem sair do meu caminho, porque eu nunca me atravessei no vosso...

Eu já batalho todos os dias por uma vida melhor, para mim e para as minhas filhas... E isso sim, é uma batalha de verdade.  Bem menos fútil e bem mais dificil que a batalha de palavras que essas pessoas tentaram contra mim. 

Good luck and be happy. 

26
Fev16

O que significa estar sozinha

Little Miss Sunshine

Estou sozinha há seis meses. Há seis meses que acordo sempre à mesma hora (7 da manhã se tiver sorte), despacho as miudas, levo-as à creche e à escola, e vou trabalhar. Quando não estou a trabalhar a mais pequena fica comigo, mas a meio da tarde tenho de ir buscar a mais velha. Depois, entre trabalhos de casa, banho e jantar sobra muito pouco tempo para as brincadeiras. Se o cansaço não tomou conta de mim, pelas 7h30 da tarde enquanto elas dormem eu trabalho mais um pouco, isto tudo antes de desmaiar na cama. Não tenho tempo para pensar em solidão. Não tenho tempo para pensar em refazer a minha vida. Os meus sonhos ainda me parecem um bocado longe, pelo menos enquanto elas não forem mais crescidas e independentes. Por isso, para mim, estar sózinha até é uma benção. Excepto quando elas estão doentes. A semana passada e quase toda esta semana elas andaram com febre, a mais velha a antibiotico. Faltei imenso ao trabalho. Não tinha ninguém para me revesar. O pai delas, ausente - como sempre. Chorei tanto porque pela primeira vez percebi que sim, estou sozinha. Quero andar para a frente mas estou presa ás minhas circunstâncias. Estou sozinha a tentar manter as minhas filhas vestidas, calçadas, lavadas e alimentadas - e para isso preciso de todos os centavos do meu ordenado. Quando falto no trabalho isso afecta as minhas contas ao fim do mês e tenho de fazer escolhas que nunca precisei fazer antes na minha vida. Estou sozinha a cuidar delas doentes, chorosas, febris, cansadas, quando só querem colo, mãe e mimo. E estou aqui, sózinha, a providenciar medicamentos, que precisam de ser tomados horas certas, e comida saudável, para que se curem depressa. Penso muito no futuro delas, se quiserem ir para a universidade, os custos disso... e tentar poupar para uma casa nossa, um lar seguro que não seja arrancado de nós devido ao aumento absurdo de renda ou à mudança de senhorio. A minha segurança financeira é importante para assegurar tudo isto. Mas nesta altura, segurança financeira eu tenho zero. E o pior é que trabalho tanto, a toda a hora, dentro e fora de casa... Ponho tanto esforço no que faço, tentando não perder os meus quase 8 anos de conquista e dedicação à minha carreira profissional, porque disso dependem os nossos projectos a três...! Quando dou por mim, estou completamente acabada. A saúde (ainda) não me faltou, graças a Deus. Mas as coisas estão tão complicadas que eu tenho umas análises para fazer, e o papel delas está há mais de 15 dias colado ao frigorífico... Não tenho tempo. Se a saúde me faltar não terei outro remédio senão curar-me sozinha. Nestes dias de aperto e grande desgaste é que eu sinto o que é realmente estar sozinha. E sinto falta de ser criança de novo. Mas os dias passam e eu sobrevivo. E como eu há montes de mulheres pelo mundo fora. Sozinhas... Que batalham. Que criam os filhos. Que, como eu, choraram muitas vezes sem que lhes limpassem as lágrimas, quando elas acharam sempre que não íam conseguir. Mas fizeram tudo, e fizeram-no sozinhas. Conseguiram. E desistir, na condição solitária que é ser mãe solteira (um termo que eu abomino), nunca poderá ser opção.

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