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E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

08
Abr06

Recordações, lembranças e a solidão das memórias...

Little Miss Sunshine

Hoje acordei com o sol escarapachado na minha cara. A minha gata tinha andado a trepar às cortinas outra vez durante a noite, e, claro, como aqui não há estores, "toma lá com a luz toda nas fuças que é para acordares e me dares de comer!"

Só eram oito da manhã, e por acaso também, só tinha que estar no trabalho lá para as duas e meia da tarde!!! Mas lá me levantei e fiz as rotinas do costume, incluindo alimentar a felina!


Mas hoje algo estava diferente. Hoje acordei com lembranças. A meio do meu trabalho pensei na minha realidade. A caminho da minha casa ( ou do meu quarto, como preferirem), pensei que estou só.

Lembranças...

Lembrei-me de ir à praça com a minha avó, quando subiamos a calçada da Picheleira e passávamos pelo Sr Rocha da orivesaria (era Rocha, não era?...), ou quando íamos à farmácia buscar qualquer coisa que a avó precisava... Depois era a senhora da loja de limpeza a seco... E as meninas da drogaria... mas naquele dia eu e a minha avó fomos mesmo à praça. Lembro-me que foi um esticão a pé, mas também, eu era uma miúda de seis/ sete anos, pernas curtas e rabo grande!

Lembro-me de trazer qualquer coisa de lá que a minha avó me comprou... Acho que eram uns livros para colorir, não tenho bem a certeza.

Dos tempos que passei na minha avó (geralmente durante as férias), lembro-me e quase posso sentir o cheiro a comida... Era um cheirinho tão bom... Fecho os olhos e oiço o relógio que estava na parede, por cima dos armários e dos electrodomésticos da cozinha. Lembro-me do leitinho quente com mel, do Vicks que a avó me passava no peito, costas e nariz cada vez que estava entupida... Ainda hoje faço isso...

Lembro-me de peixes, e mais tarde vieram os canários. Lembro-me do meu avô a tentar fazer o canário cantar com uma rolha semi-molhada encostada a uma garrafa de vinho.

E a caixa dos meus brinquedos... Perdida... Nesta altura nem sei onde anda... Mas estava cheia de recortes do sport-billy, o meu primeiro e único pequeno ponei, umas bonecas que ganhei na colónia de férias da Quimigal ( quando esta ainda existia), o jogo do jornalinho...



Recordações...

Lembrei-me quando o Fernando entrou na minha vida, da maneira como ele entrou na minha vida...  

" O sr é muito mal educado! Então já não se fala às pessoas" - disse-lhe eu da janela dos penicheiros. Que tótó! Mas resultou! Nessa noite já não nos largámos, nessa noite despedimo-nos com um beijo, à meia noite, num beco mesmo antes do Piazza ou lá como é que se chamava aquilo. O meu pai estava já lá à espera e a minha irmã, que estava um bocado mais à frente, chamava-me para eu me despachar.

No dia seguinte ainda me lembro do que eu trazia vestido para me encontrar com ele outra vez. Umas calças à boca de sino beijes com umas flores debruadas e um top preto com apliques de tule e flores da cor das calças. Estava a chover e ele apareceu tipo cavaleiro andante, no seu Seat Ibiza vermelho...

Os primeiros meses de namoro não correram muito bem, estava frio, desagradável e nós ou estavamos no café ou na rua. O melhor amigo dele também não deslargava.  Acho que foi isso que deu o twist à relação. Mas com o tempo as coisas foram-se dissipando e hoje só ficam as recordações mesmo, e a saudade.

 

Na minha vida eu deixei escapar muitas coisas, por querer viver depressa demais. Agora vejo-me com quase 28 anos e sinto que estou perdida. Ás vezes acordo e pergunto qual é o sentido de tanta luta, de tanta chatice... Só me apetece preguiçar, apetece-me desleixar-me...

E depois dá-me o medo. Não posso! Tenho de me levantar para ir trabalhar. Tenho de ir apanhar o autocarro. Tenho de ser cordial e simpática no trabalho. Tenho de sorrir, mesmo que a alma me doa... Posso não saber o que quero fazer da minha vida, mas sei de corpo e alma que não quero acabar pobre, a contar tostões para o pão e o leite e sem nada... porque nesta altura eu nada tenho mesmo... Estou a construir a minha vida, mas também já me chateia ter 28 anos, não ter um marido, uma casa, filhos, uma carro, uma carreira... Principalmente quando os meus amigos de liceu já têm isso tudo, os meus vizinhos, os meus colegas, os meus conhecidos.

Sempre tive a tendência de me comparar aos outros. Acho que isso vem mesmo da minha infância, quando o meu pai muitas vezes para nos espicaçar nos gritava " vão acabar choffeurs dos vizinhos"!!! O meu terror de estar nesta vida vazia de posse é mesmo esse. Como não quero acabar choffeur dos vizinhos, ao menos vou para um país estranho ser choffeur de uns ingleses quaisquer até acabar a minha licenciatura...

O pior é que os anos passam a correr. Já o meu cão vai fazer 6 aninhos, dois dos quais passados longe de mim.

Já a minha mãe está a preparar a segunda exposição de pintura, a primeira da qual eu não pude assistir.

O meu irmão mais novo está a precisar de apoio e eu não estou lá.

O meu pai que se sente sózinho e chateado por ter tanto que se ocupar e ninguém para falar, e eu que estou tão longe...

A minha mana que trabalha e estuda também, a tirar grandes notas, com uma vida social sempre mais saudável que a minha, e eu não estou lá para a apoiar quando ela se vai abaixo...

E o Migo, claro, que quase está casado, a ganhar bem, está lançado na vida... E eu não assisti a nada disso a acontecer...

Às vezes penso.. Das lembranças e recordações, nenhuma das vezes me lembro de perseguir tanto um objectivo. Mas a que custo...? É que me pesa o coração saber que se calhar a minha presença até não fazia diferença... mas parece que nunca saberei mesmo, não é?...

 Será que vou passar a minha vida inteira sem voltar a sentir a intensidade do meu primeiro amor? 

Bem... desde que as coisas com o Fernando acabaram da maneira que acabaram, desde que ele escolheu o caminho dele, com a esposa dele e possivelmente os filhos dele agora também, resta-me sentar e esperar que um dia alguém quebre o encantamento do meu primeiro beijo.

O mais certo é eu ser mesmo uma bicha solitária porque nunca mais consegui amar e não acredito que seja possível renascer das cinzas depois de tanta história inacabada.

Eu recuso acreditar que o amor é uma acomodação com pretexto de segurança. De qualquer das formas, já nada vai voltar a ser como antes... As pessoas vêm e vão, algumas vão mesmo para sempre...

Beijinhos...

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