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E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

19
Nov06

Acho que me passo...

Little Miss Sunshine

Hoje, apesar de ter estado um dia lindo de céu azul e sol a brilhar, foi um dia negro para mim. Aliás, ainda está a ser...

Desde a briga com o namorado hoje de manhã, que o levou a hoje à tarde levar as coisas dele para a outra casa assim que chegou do trabalho e que o fez decidir passar lá a noite, até à falta de descanso, às contas enormes para pagar (e todas ao mesmo tempo), ao trabalho académico a avolumar e às minhas crises existêncialistas... hoje correu tudo mal.

Está tudo a correr mal.

Não sei. O inglês sai macarrónico da minha boca. Não consigo pensar com tanta fluidez e o resultado é querer expressar-me e sair algo muita confuso. Não tenho ninguém para falar português - os tugas daqui também estáo cheios de trabalho e têm a vida deles.

Ando cansada. Sem vontade. Sem espírito. O meu gajo não me entende e nem sequer posso falar em português com ele, por isso a meio das discussões sai sempre uma galfinhada de confusão linguística que só me põe ainda mais desesperada. Quero fazer trabalho para a uni mas sento-me à frente do computador e só penso no outro trabalho, na minha vida, nos meus 28 anos.

No outro dia alguém me perguntou que idade é que eu tinha, e eu disse 26, para depois corrigir automáticamente para 28. Eu sinto que parei nos 26, mas não... E agora que me começo a mentalizar que tenho já 28 anos, sinto-me velha e incapaz - como se o meu cérebro tivesse encolhido de repente.

Dói-me a cabeça com frequência, especialmente quando faço turnos tardios no supermercado e no dia seguinte tenho de me levantar cedo para as aulas. Ou quando discuto com o meu namorado. Parece que tenho de chorar todos os dias... Porque estou para aqui a fazer uma coisa para a qual nem entendo muito bem o porquê de tanto esforço.

Tenho pensado na morte. Tenho medo de morrer, sempre tive. Quando era miúda, tinha medo de morrer longe dos meus pais, nomeadamente da minha mãe. Agora tenho medo que eles morram e eu não esteja lá, como vi acontecer com a minha avó. E ainda hoje me culpo por não ter ido visitá-la assim que cheguei a Portugal naquele Janeiro passado.

Trabalhamos, lutamos, exasperamo-nos para ganhar dinheiro, conquistar coisas materiais para poder ter estabilidade na vida... e tudo isso para quê? E se não há vida depois da morte? Valeu a pena ter construído um império com lágrimas e suor, quando no fim não se pode levar nada connosco, no fim é só mesmo o fim, deixar de existir e acabou!

Tenho medo do vulgar. Tenho medo de morrer e desaparecer para sempre. De que valeu ser a mais bem comportadinha, a mais responsável, a que não bebe, a que não fuma (depois mais tarde fuma, e depois mais tarde deixa... mas sempre a mais certinha!), aquela a quem os pais confiavam sempre as suas filhas numa saída nocturna... Não vivi.

E continuo a não viver. E pior ainda, não vivo a vida e estou rodeada de solidão porque nem um conforto tenho nesta terra. O meu gajo deixou-me hoje para dormir na casa dele, e em 3 meses que dormimos juntos, esta é a primeira noite que passo sem ele desde que cheguei de Portugal, no fim do Verão.

Como que nem uma desalmada e depois castigo-me. Fico sem comer um jantar ou um almoço, sinto-me gorda e velha e acabada... Porque luto por tanto e consigo tanto, mas aos meus olhos eu não tenho nada. Estou desterrada para aqui, num quarto vazio de calor humano, e nem mesmo a minha gata me consola, porque prefere esconder-se no roupeiro entre as minhas camisolonas de Inverno a ter de me mimar.

E no fim, vejo todos a construirem os seus impérios, as suas famílias... E eu só tenho um projecto que até nem é aquele que eu quero, mas tenho de o fazer se quero ser alguém, se quero ganhar dinheiro para construir o meu império... Que me vai fazer chorar e gritar e chatear, e que eu não vou trazer comigo para a cova, porque quando os meus olhos se fecharem, acabou.

E quem me vai lembrar? A família? Os amigos? Talvez por uns tempos, mas a vida há-de continuar e as coisas mudam. Quem pensa na minha avó? Eu sonho com ela agora todas as noites... tanto que agora nem as consigo dormir... Adormeço inquieta e tarde, entre lágrimas e soluços. Até à pouco tempo tinha o meu gajo para abraçar forte e sentir os braços dele enrolados no meu corpo frágil e inseguro... Agora nem isso tenho.

Ninguém me atura. Por isso é que eu fugi de Portugal... E agora o mesmo se passa aqui - e eu quero fugir. Porque eu passo a vida a fugir. De mim.

Ninguém me atura. Nem eu me aturo. Não censuro ninguém por me deixar. Afial de contas, um dia eu também vou deixar este mundo e quem é que se vai importar? Uma casa? Um quarto? Uma gata?

Duvido.

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