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E o céu azul brilhará...

Diário de uma académica portuguesa em Londres

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20
Jul07

Falta de Comunicação

Little Miss Sunshine

Hoje, num momento de solidão, pensei muito acerca do que tenho, e daquilo que me rodeia. Cheguei à triste conclusão de que, muitas vezes, o mundo onde estou inserida está cheio de lacunas, sendo a maior delas a falta de comunicação entre outras pessoas e eu. Nunca fui muito social, e estou convencida que, se tive muitos namorados quando era mais miúda, isso tinha a ver com o facto de ser loirinha de olhos verdes e magríssima, o que fazia de mim a pessoa ideal para mostrar aos amigos.

 

Assim, no emprego, recuso-me a demonstrar o meu desagrado quando estou descontente com algo. Guardo só para mim a inquietação, a frustração e o sofrimento de estar a fazer algo que detesto - mas que tenho de fazer para poder completar o meu mestrado. Tenho medo muitas vezes de ser desagradável, medo que a panela de pressão rebente e com ela, a estabilidade profissional (mesmo que a mesma seja provisoria até algo melhor aparecer pelo caminho)... Preciso do trabalho e sujeito-me muitas vezes a situações e a coisas que me arrepanham a pele, que me deixam de monco caído e me fazem chorar, berrar, revoltar com o mundo mais próximo - o meu companheiro...

 

E depois, tal como um ciclo vicioso, começa tudo outra vez. Não se fala, assiste-se cada vez mais a televisão, joga-se cada vez mais a jogos de computador, dorme-se. Um quarto que estava cheio de conversas alegres, outras nem tanto... agora está muitas vezes vazio de conteúdo, de vontade, de desejos. E enquanto pensava nesse vazio, pensei também do quão diferente a minha vida se tornou daquilo que eu queria, daquilo que eu esperava. Se fui muitas vezes além das minhas possibilidades, na minha relação acho que as coisas andam muito aquém das minhas expectativas.

 

Talvez seja a falta de comunicação que ultimamente se instalou entre nós. Acordamos, vamos ao ginásio, muitas vezes fazemos esse caminho calados. Chegamos a casa, tomamos duche, almoçamos e depois passamos a tarde ou agarrados ao computador, ou a dormir. Não há intimidade, não há afecto, carinho. Pergunto-me onde foi tudo isso. É suposto ser assim? Uma relação é suposto transformar-se numa rotina sem nexo ou sentido?

 

Por muito que respeite e ame o meu namorado, há muitas questões em aberto na nossa vida, e maior inactividade. Será que em miúda li muitos livros da Danielle Steel ao ponto de me ter tornado uma romântica irremediávelmente perdida? Sempre achei que numa relação sincera, o fogo não desaparece, a chama fica sempre acesa. Mas apesar de olhar para o meu companheiro vezes sem fim, e vezes sem fim o achar extremamente atraente, nós simplesmente não conseguimos comunicar.

 

De há alguns meses para cá então ele começou a responder-me, a levantar-me a voz, e a ignorar-me com maldade mesmo quando a minha vontade é gritar porque lhe disse mais de 200 vezes que o tampo da sanita é para baixo, que o chuveiro é para ser desligado depois do uso (é electrico), que eu preciso de ajuda porque não é só roupa lavada e comida na mesa... Eu não sou empregada doméstica, e muito menos trabalho num hotel...

 

E por muitas vezes nos acomodamos às situações e nos deixamos levar, um dia depois do outro, sem grandes expectativas para o futuro. Quando ele discute casamento, parece muitas vezes que está a falar de um chocolate qualquer que ele pode ir ao supermercado buscar só para me ver sorrir. Mas o problema é que eu me apercebi que já nem essa perspectiva me faz sorrir. Será que é ele mesmo o meu par ideal?

 

O que me garante que ele é? Porque nesta altura eu tenho muitas dúvidas acerca do meu futuro. Depois de acabar o mestrado, não sei para onde vou ou com quem vou. Mas garanto-vos que por boa pessoa que o meu Sid seja, ele é muito inexperiente nestas coisas do amor, e eu tenho expectativas demasiado altas para que um novato nestas andaças se aperceba.

 

Ultimamente, faz-me mais mal estar aqui presa, noites a fio, sem companhia, sem uma palavra amiga. É tudo à base de cobranças, desentendimentos, chatices e falta de compromisso. Não há uma certeza, só algumas incertas realidades as quais ele nem se quer se dá ao trabalho de resolver antes da chatice acontecer. Ainda estamos à espera do passaporte dele. E se não vier esta semana, eu vou para Portugal sózinha.

 

Se isso acontecer, então não adianta reparar um mal que já está mais que anunciado. Sinto que posso encontrar um homem que me faça o coração entrar em ebulição, que me dite as regras sem me as impôr, que me deixe segura sem medo do futuro. Um homem que não promete o que não pode cumprir, mas que é suficientemente maduro para me poder oferecer um estímulo mental diferente daquele que hoje tenho.

 

O Sid tem sido uma lufada de ar fresco na minha vida, mas acomodou-se. E o meu coração já não chama por ele tão fortemente como antes. Se as coisas continuam assim, então eu recuso a aceitar que a minha vida afectiva (e eu) se (me) torne em mais um dado adquirido.

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